As árvores sempre me atraíram (…) Sublinho a importância que teve na minha infância suas sombras. Não foram poucas as tardes em que usei a amenidade das sombras para estudar, brincar, conversar (…) Minha biblioteca de adulto tem algo disso. Às vezes, é como a sombra da mangueira da minha infância. (Paulo Freire)
Fundamentados em educadores como Paulo Freire e Fritjof Capra, chegamos ao tema do projeto. Leitura do mundo, leitura da palavra e pensamento sistêmico justificam e orientam o nosso trabalho. Pensar o mundo como um todo, ao mesmo tempo em que concebemos a criança como um ser integral e, sem fragmentar seu desenvolvimento é o nosso principal objetivo.
Nesse contexto, as brincadeiras e os jogos infantis representam o fazer privilegiado para cada criança experenciar tempos e espaços naturais. Momento para contemplarmos, no currículo da Educação Infantil, as especificidades da sociedade humana e suas relações com a natureza, e, de propormos intervenções pedagógicas que favoreçam o processo de construção da relação sociedade-natureza a partir do olhar da criança.
Compreender a criança como ser da natureza e ser da cultura em suas relações com o mundo físico e social nos conduz a conhecimentos sobre o mundo natural, no qual as intervenções humanas sobre ele se fazem presentes. Nesse sentido em nossas atividades pedagógicas devemos contemplar intencionalidade e compromisso com o direito das crianças ao contato com a natureza, mediando ações significativas para as mesmas com o meio ambiente, na perspectiva da preservação e do desenvolvimento sustentável.
Ao abordarmos a importância do cuidado com os seres vivos para preservação da vida, observarmos como as crianças formam conceitos espontâneos. Ao considerarmos, conforme Vygotsky que os conceitos espontâneos percorrem muitos caminhos até a criança ser capaz de defini-los verbalmente, e serão muitas as etapas a trilhar na companhia das crianças. Com relação à formação dos conceitos formais caberá aos educadores observarem indícios que as crianças nos dão durante o processo de ensino-aprendizagem.
De acordo com F. Capra é através da alfabetização ecológica que nos envolveremos, aprendizes, adultos e crianças. Acreditamos ser possível compreender as múltiplas relações que se estabelecem entre todos os seres vivos e o ambiente onde vivemos, e que tais relações constituem a teia que sustenta a vida do planeta. (2006, p.11). Sim, precisamos nutrir diariamente nosso sentido de admiração e respeito com a natureza, para que possamos redesenhar a presença humana no mundo, como crianças e adultos.
Em nosso cotidiano, praticamos algumas ações, visando ao desenvolvimento sustentável: usamos copos de plástico em substituição ao descartável; tratamos água da chuva para os deliciosos banhos no Pátio das Águas; pesquisamos o aproveitamento total dos alimentos; transformamos embalagens, páginas de jornal e revista nas Artes; as sobras giz de cera são derretidas surgindo novas; criamos instrumentos com garrafas pet, canos de PVC, colheres de pau, panelas e suas velhas tampas.
Iniciamos o ano com o nosso tradicional Bloco da Favinho & Mel, enredo Do plantio à colheita: a origem do carnaval. Nos adereços e estandartes, reaproveitamentos como matéria-prima. Ao longo do ano, vamos trabalhar ciclos de vida, culturas, relações de práticas e temas para uma Educação Infantil cada vez mais ecológica.
Bibliografia
CAPRA, Fritjof. Alfabetização Ecológica – a Educação das Crianças Para Um Mundo Sustentável. Cultriz, 2006.
FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. Olho d’agua, 2003. 5ª ed.
GUATARRI, Félix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1997. 6ª ed.
BARROS, Manuel. O Livro das Ignorãnças. Rio de Janeiro: Record, 2004. 11ª ed.
LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Leituras n.4.Textos – subsídios ao trabalho pedagógico das unidades da Rede Municipal de Educação de Campinas/ Fumec, Secretaria Municipal de Educação, Campinas, julho 2001.