Projeto 2012

Cooperação: Vamos precisar de todo mundo!

 

A Favinho & Mel ao longo dos seus 30 anos, sempre promoveu valores e atitudes essenciais para a paz e a convivência ecológica. Como escola associada a Rede Pea Unesco e por valorizar o ser cooperativo em meio a cultura do individualismo e da competitividade a qualquer custo,  traz para o seu projeto político-pedagógico o tema Cooperação.

Segundo Terry Orlick, precursor do estudo e da divulgação dos Jogos Cooperativos, contribuir ou fazer algo bem, simplesmente não exige a derrota ou a depreciação do outro.

Felizmente torna-se cada vez menos frequente entre nós a defesa da competição, como um elemento importante na educação das crianças, sob o pretexto de que assim, ficariam melhores preparadas para viverem em uma sociedade competitiva.

Em nossa prática com a educação da primeira infância, observamos o quanto o envolvimento das crianças é crescente quando trabalham juntas em espaços participativos, nos quais todas contribuem ao brincar, jogar, dançar, dialogar, pesquisar, criar e manifestar culturas entre demais atividades.

 Nesse cenário, o processo de construção/produção do conhecimento é valorizado e o aprendizado torna-se mais eficaz a medida que é contextualizado e socializado através do intercâmbio infantil. Jean Piaget atribuiu aspecto formativo a cooperação ao afirmar:

No momento em que as crianças começam a se submeter verdadeiramente às regras [combinados] e a praticá-las, segundo a uma cooperação real, forma uma cooperação nova. Conforme a cooperação substitui a coação, a criança dissocia seu EU do pensamento do outro. Logo a cooperação é fator de personalidade, se entendemos por personalidade o EU que se situa e se submete, para se fazer respeitar, às normas da reciprocidade e da discussão objetiva. Sendo a cooperação, fonte de personalidade, na mesma ocasião, as regras [combinados] deixam de ser exteriores.

O tema do projeto sugere mudanças no tempo-espaço cotidiano. E em primeiro lugar consideramos as necessidades relacionadas ao repouso, alimentação, higiene de cada criança, sua faixa etária, suas características pessoais, sua cultura, seu estilo de vida que traz de casa para a escola;

                As sequências didáticas e os deslocamentos pela escola foram organizados segundo as possibilidades de compreensão e mobilidade das crianças, garantindo que estabeleçam o máximo de relações possíveis entre os ambientes frequentados e os conteúdos, resultando em conhecimento real.

Quanto aos espaços, esses foram reorganizados levando-se em conta concepções de infância e desenvolvimento, a influência direta no uso que fazemos do ambiente, o poder de escolha, a liberdade de exploração de forma educativa e a formação integral do aluno.

Os espaços estão organizados de forma a proporcionar a escolha, caminho para formação da democracia. Esse é um pressuposto importantíssimo no trabalho baseado na Pedagogia de Célestin Freinet. Em sua prática como professor, buscava construir formas de efetivamente realizar o desafio: formar cidadãos construtores do seu saber e cooperativos em um trabalho vivo dentro e fora da sala de aula.

Inspirados nas experiências das creches de Reggio Emilia (Itália), nas escolas da Ponte (Portugal), da Vila e Desembargador Amorim Lima (Brasil), entre outras, promovemos uma significativa mudança no prédio da Pré-escola. Antigas divisórias foram retiradas e as quatro oficinas (salas) existentes deram origem a duas que passamos a chamar de Colmeias 1 e 2.

 Em cada Colmeia dois Favos (turmas) compartilham o mesmo ambiente em diferentes momentos do dia. Cada Favo conta com a figura dos educadores, responsáveis pelo planejamento do seu grupo. As crianças circulam pelas Colmeias, por seus corredores, decorados com seus trabalhos, sem pressa nem desordem, com atitudes de cooperação, tendo o cuidado de não interferirem nas atividades dos outros Favos.

As Colmeias têm conforto acústico e térmico, bebedouros, colchonetes, suportes para as mochilas, jogos, mobiliários fixo e móvel, computadores, materiais de artes, fantasias, livros, brinquedos etc, todos de uso comum. Na Colmeia 1,  sala de referência das crianças menores, há um banheiro, enquanto as maiores usam o do pátio.

Partimos do princípio de que o ambiente físico é um poderoso instrumento de aprendizagem, e por isso sua organização deve levar em conta o que é importante para o desenvolvimento de todos; incorporando valores culturais a proposta pedagógica, contamos com espaços em que as crianças possam re-significar, transformar, propor, recriar, explorar e modificar o que foi planejado.

Ambientes diferentes favorecem os mais diversos tipos de interações e o professor tem papel importante nisso. É um trabalho que requer escuta, diálogo, observação das necessidades, das demandas e dos interesses expressos pelas crianças; desejos que se transformam em objetivos pedagógicos em nosso trabalho diário.

Convidamos as famílias para reuniões de apresentação das concepções que estamos construindo e como pensamos os espaços nos quais seus filhos irão conviver. Com a chegada das crianças, iniciamos o projeto. Suas apropriações e contribuições nos dão indícios do senso cooperativo que trazem em si.

Os relacionamentos e a aprendizagem ocorrem juntos por meio das expectativas e habilidades das crianças, da competência profissional dos adultos e, em termos mais gerais, do processo educacional. Devemos incorporar em nossa prática, portanto, reflexões sobre um ponto decisivo e delicado: o que as crianças aprendem não ocorre como um resultado automático do que lhes é ensinado. Ao contrário, isso se deve em grande parte à própria realização das crianças como uma consequência de suas atividades e de nossos recursos. É necessário pensarmos sobre o conhecimento e habilidades que as crianças constroem socialmente. Em qualquer contexto, elas não esperam para apresentar questões a si mesmas e para formar estratégias de pensamento, ou princípios, ou sentimentos. Sempre, e em todo lugar, as crianças assumem um papel ativo na construção e aquisição da aprendizagem e da compreensão.  (Malaguzzi, 1999.)

 

Referência Bibliográfica:

CORREIA, Marcos Miranda. Trabalhando com jogos cooperativos: Em busca de novos paradigmas na educação física. Campinas, SP: Papirus, 2006.

EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella e FORMAN, George. As cem linguagens da criança: A abordagem de Reggio Emilia na Educação da primeira infância.Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

ELIAS, Marisa del Cioppo. Célestin Freinet: Uma Pedagogia de Atividade e Cooperação. Petrópolis, RJ Vozes Editora, 1997. 

HORN, M. G. S. Sabores, cores, sons, aromas. A organização dos espaços na Educação Infantil. Porto Alegre: Artmed, 2004.

PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e Transformação em Educação. Petrópolis, RJ Vozes Editora, 2008. 

ROBERT, Paul. A Educação na Finlândia. Porto, Portugal, Edições Afrontamento, 2010.

ROSSETTI-FERREIRA, M. C. et al. (Org.) Os fazeres na Educação Infantil. São Paulo: Cortez, 2007.

 


     

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