XIII CIFE (Colóquio Internacional de Filosofia e Educação) – Terras Infantis: “fisolofar” entre migrações, sotaques e temperos

Partindo de um cais, a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), os viajantes e participantes de diversos lugares do mundo se encontraram para compartilhar línguas e partilhar sabores, saberes e histórias no XIII CIFE, entre os dias 3 e 8 de agosto.

O Núcleo de Estudos de Filosofias e Infâncias (NEFI-UERJ) é um grupo de pesquisa com mais de 20 anos de estrada, coordenado pelo Prof. Walter O. Kohan, que afirma o compromisso da Universidade Pública com a promoção de espaços abertos de pensamento que permitam uma vida mais reflexiva e coloquem, coletivamente, em discussões as pesquisas sobre os territórios infantis.

A Escola Favinho não poderia perder esse encontro, pois somos educadores pesquisadores, comprometidos com as infâncias. Valorizamos uma prática pedagógica reflexiva, que acredita na potência das crianças, e estamos sempre em busca de novos olhares e saberes.

Ancorados ao tema, às territorialidades infantis e aos encontros possíveis a partir das relações, pesquisadores das infâncias do mundo todo foram convidados pelo coletivo a delinear e questionar o que é infância, o sentido da educação e do próprio fazer docente.

A palavra “fisolofar”, do título, remete ao modo como algumas crianças mudam a posição das sílabas e pronunciam a palavra. As crianças inventam palavras estrangeiras, o que desloca a filosofia e a educação dos seus territórios habitados e tradicionais. Refletimos, assim, sobre a escuta atenta às crianças, em que o ato de escutar vai além de ouvir, para reconhecer que elas falam por gestos, atitudes investigativas e também por silêncios.

Como afirma a proposta do Colóquio, a infância é composta, ela própria, de uma estrangeiridade, de um povo de migrantes que, num mundo adulto, fala sempre com um sotaque diverso. As crianças criam sentidos e desafiam a ordem adulta com suas linguagens e gestos.

Paulo Freire nos diz que os aprendizados não são transmissões unilaterais de saberes, mas, sim, uma troca coletiva, baseada no diálogo. E, em comunhão, os educadores mergulharam, ao longo da semana, nos chamados exercícios errantes, no sentido da palavra, sem destino, para viver experiências inventivas, sempre no exercício da pedagogia da pergunta. Entre uma proposta e outra, muitas perguntas se formaram e foram provocadas a nem sempre terem respostas, pois, por tempos, fomos ensinados a responder, e não a perguntar.

Outro convite foi pensar a infância para além do tempo cronológico, mas como potência criativa em qualquer idade, enxergá-la como uma forma de se relacionar com o mundo, como uma condição de existência.

O poeta das infâncias não poderia ficar de fora e, junto às poesias de Manoel de Barros, deliramos sobre o tempo e com as palavras. Nas miudezas do dia a dia, tudo vira aprendizado: os sons dos passarinhos, contemplar o pôr do sol, a formiga que carrega sua folha, a possibilidade de transformarmos cenários imaginários e reais em experiências.

Entre rodas filosóficas com crianças, polifonias com professores e giras de palavras, os exercícios errantes aconteceram, deixando, ao final, um convite à escrita sobre os sabores das experiências.

Walter Omar Kohan (2005) nos propõe a pensar a infância como experiência, como acontecimento, como ruptura da história, como revolução, como resistência e como criação.

A viagem não termina no cais. O que foi vivenciado, refletido e aprendido ao longo desses dias seguirá outros caminhos, chegando às formações dos professores e, especialmente, às nossas crianças. As perguntas, os encontros e os saberes compartilhados continuarão reverberando no cotidiano da Escola Favinho, nas relações, nas escutas, nas brincadeiras e nos modos de estar com as crianças.

Portanto, toda viagem do pensamento começa com uma pergunta. Pensar uma educação filosófica com as crianças é pensar mundos possíveis ou impossíveis?

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